Confiar, lição de vida, reflexão

Um conto judeu


Há muitos anos, na Pérsia, havia um rei chamado Abbas. Era
conhecido como um homem honesto e justo. Toda noite ele vagava
pelas ruas da cidade, disfarçado, para assim conhecer melhor os seus
súditos.
Certa vez, durante uma de suas andanças, notou uma pobre cabana.
Ao olhar pela janela, viu um homem diante de uma refeição bem
simples, cantando louvores a Deus. O rei bateu na porta e perguntoulhe se aceitava um convidado.
“Um convidado é uma dádiva de Deus”, disse o homem. “Por favor,
sente-se e junte-se a mim”. E, assim, repartiu sua refeição com o rei.
Os dois conversaram por muito tempo. O rei perguntou-lhe como
ganhava a vida. “Sou sapateiro”, respondeu o homem, “caminho o
dia inteiro consertando os sapatos do povo. E, à noite, compro
comida com o dinheiro que ganho”.
“E o que será do dia de amanhã?”, perguntou o rei.
“Não me preocupo com isso”, retrucou o homem, assim como está
nos Salmos, eu digo: “Bendito seja Deus cada dia, dia após dia”.
O rei ficou muito impressionado com essa atitude e prometeu voltar
no dia seguinte.
Para testar o novo amigo, o rei promulgou um decreto: ninguém
poderia consertar sapatos sem uma licença. E voltou a visitá-lo na
noite seguinte, encontrando-o sentado em sua pobre cabana,
comendo, bebendo e louvando a Deus. O homem convidou-o
novamente a participar da frugal refeição, porque “um convidado é
um presente de Deus”. O rei ouviu o homem lhe contar:
“Não podendo consertar sapatos, por decreto do rei, resolvi tirar água
do poço para as pessoas, para ganhar um pouco de dinheiro e
comprar meu sustento”. “E o que você faria se o rei proibisse isso?”
“Direi: Bendito seja Deus, dia após dia.”
Mas o rei decidiu testar mais uma vez o homem e decretou que seus
súditos estavam proibidos de tirar água dos poços sem licença. Na
noite seguinte, voltando novamente à cabana, o rei foi recebido por
seu novo amigo com alegria e o ouviu novamente declarar sua fé em
Deus.
O rei não estava convencido e decidiu testar mais e mais o homem.
Este passou a cortar lenha para garantir seu sustento e, quando isto
também foi proibido pelo rei, não desanimou e apresentou-se ao
palácio real para fazer parte da guarda real.
O homem que foi sapateiro, depois carregador de água e, em
seguida, lenhador, recebeu uma espada, para ser guarda. À noite,
sem ter recebido o pagamento, foi até uma loja e trocou a lâmina de
sua espada por um pouco de comida e colocou uma lâmina de
madeira no cabo, cobrindo-a com a bainha.
Logo depois, o rei chegou. Eles seguiram o mesmo ritual, comendo e
conversando até tarde. O amigo lhe contou sobre a espada.
“E se houver uma inspeção nas espadas, o que você fará?”, quis
saber o rei. “Bendito seja Deus, dia após dia”, respondeu o homem,
mais uma vez não demonstrando preocupação alguma.
No dia seguinte, o capitão dos guardas ordenou ao homem que
decapitasse um prisioneiro, por ordem do rei.
“Nunca matei ninguém em toda minha vida. Como posso fazer isso”,
retrucou o homem, abaixando a cabeça e recitando o Salmo:
“Bendito seja Deus, dia após dia”. Logo lhe ocorreu uma brilhante
idéia e se precipitou para obedecer à ordem do rei. Na frente de uma
multidão que viera para assistir a execução, pegou a sua espada e
gritou: “Deus Todo-Poderoso, o Senhor sabe que eu não sou um
assassino. Se o prisioneiro for culpado, deixe minha espada ser de
aço. Mas, se ele for inocente, faça com que a lâmina de aço
transforme-se em madeira”. Dizendo isso, puxou a bainha e, oh!, a
espada era de madeira! Todos ficaram pasmos de surpresa.
O rei chamou o sapateiro e o abraçou. Contou-lhe sobre o seu
disfarce e os testes pelos quais o fizera passar.
“Eu nunca tinha encontrado um homem com tamanha fé”, disse o rei.
E foi assim que o sapateiro, que se tornou carregador de água, e
depois lenhador, guarda real e finalmente o conselheiro do rei.
(autor desconhecido)