A condenação de Cornélio Mansur

Era uma vez um rapaz que se chamava Cornélio Mansur, de origem muito humilde, mas rico em honestidade e na atenção que dedicava aos amigos e à esposa. Não havia quem não gostasse dele. Fazia amizade com facilidade e estava sempre disposto a ajudar. Não era ganancioso e nem orgulhoso. Era o que chamariamos de “boa praça”, no mais amplo sentidoda palavra.

por outro lado, sua esposa Berrnadette (com dois erres e dois tês) cinco anos mais velha, era completamente diferente. Rabugenta e vaidosa, agia como se fosse a dona da razão; infernizava a vida do rapaz e estava sempre de mau humor. Berrnadette (com dois erres e dois tês) era baixinha, atarracada, combraços de marinheiro e uma vasta cabeleira negra. Não havia uma vez que fosse à feira que não arrumasse confusão. E não era só na feira.

Os vizinhos, tres quarterões acima e tres quarteirões abaixo, já conheciam a sua fama.

Na hora do pão das tres, Berrnadette (com dois erres e dois tês) entrava na padaria como se fosse a dona. Nariz empinado e estalando os tamancos no chão, furava a fila do caixa. Aí, com o maior descaramento, apertava cada um dos pães no cesto e depois dizia: “Embrulha esse, que estou com pressa!”

O coitado do Cornélio Mansur vivia envergonhado com a esposa . E não só por isso, mas também pela roupa mal passada que usava, pois Berrnadette (com dois erres e dois tês) nunca quis saber do serviço de casa. Depois de um dia cansativo, Cornélio Mansur ainda tinha que enfrentar o fogão, o tanque, o ferro e a vassoura.

Enquanto ele fazia jornada dupla, Berrnadette (com dois erres e dois tês) se esparramava no sofá, pra assistir novela, ai de Cornélio Mansur se quisesse assistir outra coisa. Era um vexame quando o moço se detinha por algum tempo conversando na portaria do prédio e vinha aquele berro do terceiro andar: “Cornéliôoo, sóóóbe!!”, Era ela, Berrnadette (com dois erres e dois tês) com a cara cheia de pasta para espinhas e uma touca plástica cobrindo os rolinhos engalfinhados nos cabelos. E lá ia cabisbaixo, a obedecer ao comando da esposa.

“Que rapaz espetacular!”, pensavam os vizinhos e parentes. “É tão humilhado pela mulher e ainda a tratar como uma rainha”. Mas como tudo na vida tem o seu limite, um dia a paciência do rapaz acabou. Num daqueles sábados abafados do Rio de janeiro, Cornélio Mansur, que por onze anos trabalhava como balconista da mesma loja de tecidos na Rua da Alfândega, pediu ao patrão para sair mas cedo.

Era aniversáriio da Berrnadette (com dois erres e dois tês) e ele queria fazer uma surpresa. Tinha visto uma peça de carne seca na feira, do jeito que Berrnadette (com dois erres e dois tês) gostava e queria comprá-la antes que outro a levasse. Comprou também uma abóbora e uma panela de pressão. Iria preparar o prato predileto da Berrnadette (com dois erres e dois tês): Carne seca com abóbora.

Não foi fácil carregar aquilo tudo no 984 Castelo-Méier, que andava sempre superlotado. Quando chegou em casa estava esgotado mas feliz. Abriu a porta e, para sua decepção, encontrou Berrnadette (com dois erres e dois tês) que não o esperava tão cedo, comemorando o aniversário nos braços do Tião Bastião, mecânico da oficina, que nem sequer teve a consideração de tirar o macacão cheio de graxa para deitar em sua cama.

Cornélio mansur ficou bravo e, num ataque de fúria, tascou a panela de pressão na cabeça da mulher, que caiu durona no chão.

no dia do julgamento, o juiz não levou nem duas horas. Eram tantas as testemunhas a favor de Cornélio Mansur que ele entendeu o crime como passional e absorveu o réu. Agora livre, solteiro e sem Berrnadette (com dois erres e dois tês) para lhe assaltar o bolso, Cornélio mansur vivia uma prosperidade que jamais tivera.

Mudou-se para um apartamento menor, mas de frente para a praia de Botafogo. Vendeu alguns móveis e comprou um carro. Ganhou uma promoção no emprego e passou a gerente. Prestações em dia, poupança crescendo; Cornélio mansur era o retrato da felicidade. Até… pois é tem um até que o destino lhe armou outra arapuca.

Num dia de Finados levado pela saudade,, foi colocar flores no túmulo da falecida no Cemitério do Caju. Quem encontrou? Quem?… Quem?… Cleonnette (com dois enes e dois tês) a irmã mais velha de Berrnadette (com dois erres e dois tês) Já não se viam há longo tempo. Conversaram, choramingaram. O rapaz mais uma vez pediu perdão pelo ocorrido e ofereceu-lhe carona.

A carência os aproximou e algum tempo depois o inevitável aconteceu: casaram-se! Lá foi o infeliz para mais uma furada, enganado pelo próprio coração.

Para encurta a história, a Cleonnette (com dois enes e dois tês)  era pior que a Berrnadette (com dois erres e dois tês), e com um agravante: três anos mais velha! Dois anos de inião, dois anos de infelicidade. Até que um dia, durante uma discurssão acalorada, a mulher saca de uma arma e grita:

-Tu não me matar como fez com minha irmã. Primeiro vai tu.

Mandou bala no Cornélio Mansur. O rapaz pulou para baixo do sofá, enquanto uma das balas ricocheteava na parede e voltava incandescente para o peito da Cleonnette (com dois enes e dois tês), ao cair no chão, o revolver  escorregou de sua mão e foi para junto do rapaz, que o apanhou e se pos de pé. Nesse momento os vizinhos invadiram o apartamento e gritaram:

– Assassino, assassino!! Matou a mulher!!

por ser reincidente, o caso foi parar no mesmo juiz que o julgara da primeira vez. Novamente o juiz não levou nem duas horas para proferir a sentença:

– O réu é culpado e condenado a cumprir pena de reclusão pelo período  de 70 anos e 7 dias

– Senhor juiz – apelou Cornélio Mansur – eu não matei. Ela morreu com o p´roprio disparo!

– Pelo incidente que causou a morte de Cleonnette (com dois enes e dois tês) – explicou o juiz – o senhor cumprirá os sete dias da setença. Os outros 70 anossão por ter casado de novo e, pior com a mulher errada!

E assim bateu o martelo e deu o caso por encerrado. A história é engraçada, mas o assunto é sério e serve de alerta para alguns jovens que desejam se casar. O casamento é um passo crucial na vida. Cuidado com as Berrnadette (com dois erres e dois tês) e Cleonnette (com dois enes e dois tês) (simbolicamente, seja o homem ou mulher) da vida. Caso contrário você  vai fazer companhia a Cornélio Mansur. Talvez não no presídio, mas preso às grades de um casamento infeliz.

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